Atleta transexual gera polêmica ao disputar liga feminina de vôlei.

07/02/2018

Com 33 anos, 1,92 m e 191 pontos em oito jogos na Superliga Feminina de Vôlei, Tiffany Abreu tem chamado a atenção dentro e fora de quadra. Jogadora do Bauru, ela se tornou a primeira atleta transexual a atuar na competição mais importante da modalidade no Brasil, com permissão das principais entidades do esporte, por apresentar os níveis de testosterona (abaixo de 10 nanogramas) exigidos.

O desempenho da camisa 10 da equipe paulistana gerou repercussão mundial e levantou debate sobre transgêneros no esporte olímpico. O principal ponto de discussão, que tem alimentado controvérsias no voleibol feminino, é de que Tiffany pode obter vantagem por ter nascido e se desenvolvido como homem.

Os números da jogadora impressionam. Ela quebrou o recorde de pontos em uma mesma partida da Superliga Feminina ao marcar 39 vezes. A oposta também tem a maior média de pontos por set do torneio, com 5,46, superando Tandara Caixeta, campeã olímpica e destaque do Osasco.

"Se existem homens bons, vão existir transexuais boas. Estou aqui simplesmente porque tenho talento", se defendeu Tiffany após a última partida, dia 2. Ela passou pelo processo de transição de gênero de 2012 a 2014, entre tratamento hormonal até cirurgias para mudança de sexo. Antes disso, jogou no masculino e teve carreira discreta.

Atletas e treinadores da Superliga têm evitado se posicionar sobre Tiffany. Nos bastidores, movimento contra a participação da atleta cresce. Clubes estariam pressionando a CBV. Ao O POVO, a entidade afirmou não ter sido procurada pelas agremiações.

Colega de equipe de Tiffany, a capitã do Bauru, Angélica, vê com naturalidade a participação da atleta transexual em qualquer liga feminina de voleibol. "Ela cumpre as leis e, portanto, está apta para jogar normalmente", argumenta.

Para ela, as críticas à presença de Tiffany são naturais por se tratar de algo novo no esporte. A capitã acredita que, com o tempo, isso acabará se tornando mais aceito.

Ex-jogadora de vôlei, Ana Paula Henkel classifica como um "absurdo" a participação de Tiffany. Bronze em Atlanta, ela diz que as críticas não são à transexual, mas às entidades que regulam o esporte. "É negar a ciência e biologia humana em prol do politicamente correto. Estão fechando os olhos para o esporte justo. Esse debate é muito claro e não fica em nenhum momento no campo do preconceito", afirma ao O POVO.